Sou eu quem secretamente te
foge das mãos.
Misturo-me num castigo de
cores, num suspirar de tons
morenos e isolados, que não
se fundem nem se perdem
no fundo da rua, ao largo
das sombras.
Sou eu quem silenciosamente
te aclama demente.
Mascaro-me numa voz de
prazer, num segredar de gritos
esguios e condenados, que
não se deformam nem se escutam
no fundo da rua, ao largo
das sombras.
Sou eu quem cruelmente te
adormece inquieto.
Revelo-me num fugir de
sonhos, num demorar de memórias
contingentes e amantes, que
não se demoram nem se afastam
quando olhas para as ruas
vazias, sem rasto de sombras.
Para o amigo Octávio Lourenço.

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