Sunday, March 19, 2017

47 - Pelos olhos de outros


Pelos teus olhos nós veremos
e seremos, tudo o que nos aproxima da ilusão
e nos deixa a levitar longe do chão, enfeitiçados nessa incompreensão.
Ainda que apenas sonhos lançados ao alto, regressando num ressalto,
pela ingenuidade que se adianta, mas que a vida antecipa e levanta.
De voos inconstantes, extinguem-se as asas flamejantes.

Pelos teus olhos nós veremos
e seremos, tudo o que no tempo se suspende,
mas que nenhum espírito entende… uma alma aberta nunca se defende.
Ainda que no fim um peito destroçado, repisando o passado
numa paixão que se dilata, abandonando-se numa noite intacta.  
Do adormecer ao acordar, um intimo que não ousas partilhar.

Pelos teus olhos nós veremos
e seremos, tudo o que resta afinal dessa ira repetida,
de felina a perdida, nada mais do que uma dor invertida.
Ainda que sob a pele incendiada, uma vida inacabada,
pelo tom de um nome maldito, levará consigo um fim infinito.
De tão singular e nobre motim, apenas a tua alma arlequim. 

Pelos teus olhos nós veremos
e seremos. Seremos nós também
um pouco menos, um pouco mais.
Lívidos venenos, sonhos de corais.


          Para a minha irmã Célia Martins

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