Saturday, February 7, 2026

78 - Porto Seguro

Saíste porta fora ainda o dia não tinha adormecido completamente.

Deixas para trás apenas algumas palavras vagas, sem significado, uma distância a dilatar-se cada vez mais entre nós, intransponível.

O teu prato sujo sobre a mesa, restos de cinzas mortas no cinzeiro ainda pousado no beirado da janela da cozinha onde te expões inacessível, em silêncio, de olhar inexpressivo na direção da rua quase sempre deserta, antevendo a luxúria que te espera lá fora.

Aqui dentro da nossa casa nada mais do que o meu protesto a atravessar este silêncio pesado. Como se fizesse diferença…  

 

A noite chega e não me diz nada sobre ti. Bem sei que irá conspirar, contigo, para sempre.

A cama vazia, a sua dimensão cada vez mais amplificada, e eu, cada vez mais pequena, como de repente estivesse no meio do mar a tentar definir horizontes em meu redor.    

Há aqui uma ausência que nunca se ausenta.

Como se esta solidão fosse uma pessoa que fala comigo sobre ti por não haver mais nada a dizer.

De nada me vale tentar fechar os olhos e sonhar em deixar de te amar.  

Não há sono que me console nem descanso que me traga de volta uma paz de espírito adequada.

A tua presença mantém-se aqui, mesmo sabendo que poderás estar fechado noutros braços, absorvido noutro calor.

Sei que mais tarde ou mais cedo regressarás como se um vento qualquer te trouxesse de volta até aqui por mero acaso.

Porque é aqui onde regressas sempre.

Trarás contigo um novo perfume, um olhar de rendição absoluto e uma certeza nas tuas mãos que se antecipam à minha fuga.

Rio-me da minha dignidade por se envergonhar do meu colo a ferver ao pensar nas tuas mãos e silêncio em mim.

Não acredito que seja insana. Deverá ser apenas amor.

 

Horas depois, ouço as tuas chaves na porta de casa, os teus passos pesados a definir o caminho até ao nosso quarto. Como se uma fatalidade estivesse prestes a acontecer.

Finjo dormir, finjo esquecer, finjo não existir.

Mas há um calor que surge do nada, invadindo o quarto totalmente em segundos, invadindo-me a mim. És tu.

A minha respiração denuncia o meu inútil ardil e ambos sabemos o que nos espera.  

Antecipando o teu toque, o meu coração explode-me na boca, a lucidez esquece-se de mim uma vez mais, o meu corpo trémulo suplica pelo calor do teu corpo.       

Parece não haver escolha. Render-me assim.

Não saber porquê arruína todos os argumentos de alterar a realidade de viver apenas numa profecia de me saberes ser tua.

Estou aqui para ti. Sabes disso tão bem como eu.

Ainda que saiba que não poderei ser tua completamente.

Porque não conspiramos juntos para sempre desta vez? 

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