Soubéssemos nós que seria aquela a nossa última noite juntos, verdadeiramente juntos e teríamos fugido sem parar, com medo que o tempo se esgotasse em nós. Todos os motivos, todas as questões, todas as dúvidas acabaram por nos toldar os pensamentos, atrapalhar o raciocínio frio que a paixão tanto detesta e que o amor tantas vezes precisa. Foram suficientes essas hesitações para acabarmos demasiado sós com as decisões que provocam todas as tragédias. Até ao ponto de nos ter sido impossível fugir fosse do que fosse, do tempo, das decisões, das incertezas que passaram a dúvidas, depois a suposições e finalmente a verdades curtas, habilmente comprimidas por cada um de nós em palavras que não ousaremos mais pronunciar. Tanto e tão pouco nessa noite. Nessa última noite verdadeiramente juntos. O que foi que me esqueci de te dizer? Queria voltar ao teu quarto, agarrar os teus braços e impedir-te de embalares todas as tuas coisas, de libertares todos os teus objectos do seu passado, do nosso passado e dizer-te tudo o que me esqueci de dizer. O que foi que me esqueci de te dizer? Todas as palavras. E num instante o quarto vazio, as mobílias já nuas, apenas as nossas roupas espalhadas pelo chão como espectros deformados de nós, tudo demasiado frio neste quarto, neste espaço onde já não caímos bem. Não somos nós. O quarto vazio, a lua lá fora enorme a murmurar-nos esta memória dos nossos corpos a delirar numa súbita solidão. Bastou o tempo de beijos repetidos, quase engolidos, um tanto à pressa, outro tanto num desespero aflito para que a rua ficasse vazia e tudo fosse uma súbita solidão que nem soube de onde veio assim tão ligeira, bem sorrateira para me inundar. Ainda hoje a sinto bem perto quando penso naquela rua de tão vazia. Acaricia-me o pescoço e comprime-me o peito suavemente num abraço ate me esmagar a respiração. Não mais esquecerei a sensação daquela rua vazia. Lá em cima a tua janela bem fechada sem os habituais cortinados a esbracejar cá fora todos os delírios do calor ofegante… Um automóvel inexpressivo a passar devagar a meu lado, como a qualquer instante fosse parar de morto… a senhora idosa à janela da sua casa tão idosa como ela a fitar-me como sempre o fez até hoje, como se nunca me reconhecesse… duas ou três crianças a brincarem ao fundo da rua como se não fosse nada, a chutarem a bola para todo o lado da ousadia, sem direcção nem cuidado. E depois mais nada. O que foi que fiz? Fiz tudo o que havia a fazer de errado. Não te disse todas as palavras. Porque sempre soube que as palavras nos prendem. Prendem-nos à nossa consciência e à nossa intuição e foram essas as palavras que guardei. Alimentei-te de outras que nem hoje as posso compreender e que te prenderam a ilusões tolas, próprias de quem ainda não tinha tido tempo para cair em algumas inevitáveis desilusões da vida. Arranjei outras dentro de mim para me enganar a mim próprio que até hoje também nunca cheguei a perceber onde as fui buscar. Nunca mais as usei. Serviram-me para me mascarar do que sentia, para enganar toda a gente. E para me perder de ti. Ando agora a tentar aprender a falar outra vez. Não sei se conseguirei. Um dia talvez grite bem alto e todas as noites fujam e regressem nesse mesmo instante. Tanto e tão pouco nessa noite. Tanto que ainda hoje me persegue, Tão pouco que nunca cheguei a ser eu. Soubéssemos nós que aquela seria a nossa última noite juntos… Teríamos fugido, mesmo sem saber para onde. Bastaria arrastar aquela noite pelos dias fora, pela vida fora, pelo tempo fora, até não haver mais tempo para gastar e depois, e só então, parar. Parar para saborear uma outra noite. E nunca mais esquecer.
Monday, September 15, 2008
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