Tuesday, February 5, 2008

4 - O Meu Combate

Já coloquei as luvas vermelhas sangue, as últimas peças do meu reduzido arsenal, do meu frágil uniforme de combate. O meu corpo liberta um calor diabólico, milhares de minúsculas gotas de suor entrelaçadas a lutarem entre si… sinto-me desenfreado, como houvesse nos meus músculos tensos, nos meus ossos agora gigantes, vida para além da minha vontade, dos meus desejos e controlo. O meu treinador incentiva-me de uma forma agressiva… palavras sussurradas para dentro da minha alma a ferver, gritos de ânimo, desejos de destruição total. Espera que seja um guerreiro enorme, de resistência inquebrável e impossível, que lute sem tréguas até ao limite físico e mental das minhas forças. Lá fora, os gritos de uma multidão que aguarda ansiosa pela minha subida ao ringue e do meu opositor, pelo nosso embate catalisador, atravessam as paredes do balneário. É hora… saio finalmente do pequeno espaço fétido e meio desmoronado como se saísse do inferno, decidido, transformado, a mente focalizada em apenas combater, ser invencível e destruidor. Estou pronto. Já não me reconheço. Esqueci o amor. A multidão aclama a nossa entrada no recinto eletrificado, incendiado, uma explosão em contínua deflagração. Batem palmas, gritam irracionalmente os nossos nomes enquanto ambos percorremos a pequena distância que nos separa do ponto de encontro oprimido. O público sente-nos como seus, como seus filhos ou irmãos, como amores escondidos que se revelam. Somos efetivamente seus. De todos…. subo ao ringue que fervilha sob os meus pés como houvesse nele chamas invisíveis. Ouço as últimas palavras de incentivo e estratégia por parte do meu treinador. Protege-te bem, bate pela certa, ataca em movimentos curtos e não deixes que se aproxime demasiado para que não te possa atingir. Tudo se resume a isto, a estas palavras. Nada mais importa nos próximos minutos, horas, anos. O combate começa. Ainda vou a tempo de numa pequena fração de segundo encontrar a tua face no meio da multidão fixa em mim. Sinto que já não me reconheces. Nunca me reconheces neste pequeno quadrado espaço mundo que contem a minha fúria e as minhas angústias. Sou isto e nada mais. Um monstro-homem prestes a enfurecer-se com o que não conhece e não entende quando defronta a sua alma. Amas isto percebes? Isto também. Esta irracionalidade de não ser mais do que isto. Esta irracionalidade de absorver todos os golpes, de disparar tudo o que tenho uma e outra vez à procura de sobreviver, de vencer à custa do sabor do sangue púrpura revelador. Continuo, não me contenho. A multidão a agigantar-se à minha volta, nas minhas costas escudo, a apoiar-se nos meus braços e ombros, para também eles desferirem os seus golpes e vencerem o que não poderão vencer sem lutar, palavras nunca proferidas, secretas, desejos inesquecíveis e inarráveis, guardados nas mãos-punho, como se os punhos fossem corações destroçados. Luto por eles. Por mim e por ti. Por alguém. Sempre por ti. Não paro… juro que não paro. Não poderei parar. Todas as minhas forças concentradas em dar mais um passo. Protegido, batendo pela certa, atacando em movimentos curtos e esquivos, mantendo o meu adversário a uma distância segura para que não me possa atingir. Nada disto terá fim. Por mais que castigue o meu adversário, que o vença, que vença dezenas, centenas de adversários, nada disto terá fim. Não poderei lutar para sempre. Nunca poderei impedir de sentir a fraqueza que se apoderou do meu corpo quando me socaste no estômago com um poderoso golpe certeiro, direto, arremessando-me imediatamente ao chão, como toda a força do mundo estivesse no fim do teu punho, no teu punho coração. Por mais que me proteja tu atravessas a minha armadura com os teus movimentos, com a tua leveza extrema que me distrai e me hipnotiza, apenas para que possas derrubar toda a minha resistência e obteres o que é afinal de mim. Eu que apenas sei lutar, que nunca soube amar, tenho de amar como nunca amei, como nunca o saberia fazer. Eu que toda a minha vida sempre fui carne mastigada, músculos manipulados, ossos gigantes, nervos eletrizados, nada de coração, luto agora para proteger esse músculo punho, esse músculo poço, esse músculo meu… Disparo um e outro golpe, mais um, mais um, sempre mais um. A multidão grita e empurra-me para a frente, para a tua frente. Afasto o meu adversário, derrubo-o, aniquilo-o. E Acaba… estou ensanguentado, o gosto metálico retorcido do sangue púrpura sorvendo-se amargamente no meu íntimo como se fosse uma palavra bradada, a multidão rouca de tanto gritar, de tanto perseguir os seus fantasmas murmura, por fim, saciada. O meu adversário imóvel no chão sem reação. Tu apenas foges para longe de mim, para longe do monstro-homem… Ainda assim sei que seremos nós, no fim da noite, após se extinguirem os pesadelos, os dois sós, num abraço apertado, a aproximar todos estes espaços agora dilatados. 

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