Monday, April 22, 2019

50 - Quarto vazio

Esvaziamos o nosso quarto aos poucos,
Como se esvaziam recordações entre sorrisos de conversas tontas,
Aos poucos, vamo-nos abandonando sem saber onde.

O perfume dos nossos vestígios dissipando-se com o morrer do dia frágil,
Desaparece vagamente no espaço de um quarto tão vazio das cores de outrora,
Dos objetos inundados de passados, do que fomos tão perto.

Sobrevivemos nós olhando-nos perplexos à distância de um silêncio, 
Como peças de mobília nua sem sítio onde cair bem,
Amando-se pelo quarto fora à procura de um resto de memórias.

Despimo-nos como despimos antes este quarto ao sabor de lágrimas,
As roupas fazem-se fantasmas salientes no branco indiferente do espaço nu,
E a noite abraça o resto de sentimento através da janela privada.

Engolimos a respiração quente, calamos sussurros, lutamos juntos, 
Somos estátuas movendo-se devagar, de sentimentos já petrificados,
Únicos fragmentos de um quarto vazio onde sempre poderemos ser. 

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