Sunday, August 2, 2009

18 - Segunda Pele

Há dias que quase me passas despercebida. Dias em que não encontro a tua imagem numa rua vagueando-me olhares, descobrindo os teus cândidos sorrisos ao virar de uma esquina que será para sempre tua de ter sido nossa num momento; dias em que não me falas através de objectos aos quais deformaste todo o seu significado e que agora repousam suspensos em vários ângulos mortos da minha visão à espera de uma nova colisão de pensamentos; dias em que a maioria de um sem número de palavras soltas no ar não me levam até ti arrastando as consequentes memórias, presas a mim como pequenos trechos de filmes por vezes muito dispersos e descaracterizados, perdidos de toda a cor, por vezes tão intensamente perto do seu real contacto e emoção; Estive perto de me enganar... É apenas mais um final de um dia qualquer. E eu vagueio inquieto pela casa silenciada como este fosse um plano irreal de um sonho sem sentido. Por vezes é tudo intenso demais, mesmo depois de tudo ter sido tanto e hoje já não o ser, mesmo depois de todo este tempo esgotado a ficar para trás. Olho pela janela, lá fora a noite profunda engolindo a cidade, o seu silêncio e os seus mistérios, pequenas chamas de luz pontapeando a escuridão, orientando todos os medos ressentidos de quem se perdeu algures lá fora. Atravesso-a, rasgando-a, perdendo-me! Tudo o que quero saber é o que fazes neste momento. Em que cama oculta te deitas e se outros braços te seguem… Pergunto-me se ainda me sentes perto quando as palavras soltas no ar me levam a ti pelo pronunciar causal do meu nome noutros lábios que não os teus, se ainda o consegues dizer sem que todas as suas  letras juntas não te pareçam um som obscuro de profano. Sinto-te como uma segunda pele, constantemente… A pele de um fantasma que me devasta, que atravessa paredes e todas as portas fechadas e invade os meus espaços vazios de descaracterizados para os encher de inúmeros passados, seguindo-me através de fronteiras invisíveis que se destroem perante a força da sua presença, apenas para se aninhar bem escondida no fundo da minha alma. És tu a minha segunda pele… Todas as tuas horas sobrepostas umas nas outras e tecidas num véu invisível, todos os teus momentos transfigurados numa pele transparente que reveste por completo todos os meus defeitos e fraquezas, que sublinha o contorno do meu corpo em todos os seus pormenores escondidos de teus. Desapareces e regressas repetidamente dia após dia, até os dias serem hoje e amanhã também. Regressas sempre. Queria poder despir-te. Tirar esta minha segunda pele e ser apenas eu. Porque não sei quando voltarei a ser eu, porque estou cansado de não o conseguir ser. De saber que não poderei mover-me sem sentir que te moves por detrás de mim, dançando comigo, alterando a minha expressão quando valsas os meus passos devagar, sufocando os meus silêncios como se fossem eles as palavras que não posso pronunciar. É tarde; muito tarde; tão tarde! Ouço-te sorrir do fundo do corredor, onde me aguardas. Hoje quase me passaste despercebida, mas na solidão do meu quarto, no sossego da escuridão és sempre tanto ou muito mais no meu corpo.

3 comments:

Sílvia Vargas said...

Continuo a achar que escreves muitissimo bem, mas cada vez se torna mais complicado entender as tuas metáforas. Ou estás a ficar melhor ou sou eu que estou a ficar lerda. Não te preocupes, existem 99% de hipóteses do problema estár em mim.
Fica bem.

Margot said...

Na "segunda pele", é onde se encontra o EU, o sentimento, o autêntico,... tivesse eu coragem, e despisse este camulfado quotidiano.
Vives a "segunda pele" através da escrita, praticas a paixão, a liberdade desmedida na volupia das palavras.
Não importa que o teu desejo não se materialize, porque imprimes realidade à tua "segunda pele" sempre que alguém lê e sente a tua escrita...

Anonymous said...

Tornaste tão vívidos os sentimentos do personagem que me vi mergulhada no mesmo sofrimento.
Denso...inquietante, e extremamente bem escito.
Cumprimentos sinceros.